Mauro Ferreira no G1

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quinta-feira, 3 de março de 2011

Dudu Nobre volta às inéditas com samba quente de romantismo popular

Resenha de CD
Título: O Samba Aqui Esquentou
Artista: Dudu Nobre
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * *

Após dois álbuns calcados em regravações que pouco acrescentaram à sua discografia, Dudu Nobre volta às inéditas em boa forma. Oitavo título da obra fonográfica do sambista projetado em 1999, produzido pelo próprio Dudu em parceria com Rildo Hora, O Samba Aqui Já Esquentou é disco caloroso e descontraído que investe no romantismo popular sem descer ao nível do gênero rotulado como pagode romântico. Dudu não é de chororô. Mesmo quando canta o descompasso do amor, como em Coisa de Amante (Adilson Bispo e Zé Roberto), regravação do belo samba lançado por Reinado em 1987, o sambista evita  tom dolorido. Da safra de inéditas, o clássico instantâneo é Quer Saber da Minha Vida? Vai na Macumba, partido alto da lavra de Dudu com Nei Lopes, que versa com sua habitual maestria sobre a maledicência a que se dedicam parte da humanidade e a indústria das celebridades. Mas Não Demora pra Abalar - samba de terreiro assinado por Dudu com Pretinho da Serrinha - e O Samba Aqui Já Esquentou (Dudu Nobre, Fred Camacho e André Rosa) também merecem menções honrosas, sendo que o tema que dá título ao disco celebra o próprio samba enquanto evoca as tradições do nobre pagode  cultuado no Cacique de Ramos, celeiro de bambas como Zeca Pagodinho e o grupo Fundo de Quintal. Na seara romântica, Que Gostoso (Dudu Nobre e Luizinho SP) e Cem por Cento Você (Dudu Nobre e Chiquinho dos Santos) são sambas de bonitas melodias, inflamadas com versos de alto teor erótico. Aliás, a  testosterona jorra em É Ela, samba malandro assinado por Lú Cardoso em parceria com o produtor Rildo Hora. Em rota mais regional, Amor Eu Tenho pra te Dar (Dudu Nobre, Claudemir e Fernando Magarça) é samba ambientado em clima rural pela gaita de Rildo e a sanfona de Kiko. Em tom mais espiritual, Senhor, me Proteja, Por Favor - único samba assinado somente por Dudu - é súplica por dias prósperos e pacíficos feita em sintonia com a religiosidade do povo brasileiro. Já na seara das regravações o destaque é Pra que Vou Recordar o que Chorei? (1977), tema de Carlos Dafé que Dudu traz para o universo do pagode, sem o traço soul da gravação original do compositor projetado no movimento Black Rio. Em contrapartida, Cordas de Aço (1976) soa tão digna quanto trivial, uma vez que a obra-prima de Cartola (1908 - 1980) já mereceu registros de intérpretes mais expressivos. No todo, O Samba Aqui Já Esquentou se revela um ótimo e alegre CD que apaga a má impressão deixada pelos últimos trabalhos de Dudu Nobre.

Um comentário:

Mauro Ferreira disse...

Após dois álbuns calcados em regravações que pouco acrescentaram à sua discografia, Dudu Nobre volta às inéditas em boa forma. Oitavo título da obra fonográfica do sambista projetado em 1999, produzido pelo próprio Dudu em parceria com Rildo Hora, O Samba Aqui Já Esquentou é disco caloroso e descontraído que investe no romantismo popular sem descer ao nível do gênero rotulado como pagode romântico. Dudu não é de chororô. Mesmo quando canta o descompasso do amor, como em Coisa de Amante (Adilson Bispo e Zé Roberto), regravação do belo samba lançado por Reinado em 1987, o sambista evita tom dolorido. Da safra de inéditas, o clássico instantâneo é Quer Saber da Minha Vida? Vai na Macumba, partido alto da lavra de Dudu com Nei Lopes, que versa com sua habitual maestria sobre a maledicência a que se dedicam parte da humanidade e a indústria das celebridades. Mas Não Demora pra Abalar - samba de terreiro assinado por Dudu com Pretinho da Serrinha - e O Samba Aqui Já Esquentou (Dudu Nobre, Fred Camacho e André Rosa) também merecem menções honrosas, sendo que o tema que dá título ao disco celebra o próprio samba enquanto evoca as tradições do nobre pagode cultuado no Cacique de Ramos, celeiro de bambas como Zeca Pagodinho e o grupo Fundo de Quintal. Na seara romântica, Que Gostoso (Dudu Nobre e Luizinho SP) e Cem por Cento Você (Dudu Nobre e Chiquinho dos Santos) são sambas de bonitas melodias, inflamadas com versos de alto teor erótico. Aliás, a testosterona jorra em É Ela, samba malandro assinado por Lú Cardoso em parceria com o produtor Rildo Hora. Em rota mais regional, Amor Eu Tenho pra te Dar (Dudu Nobre, Claudemir e Fernando Magarça) é samba ambientado em clima rural pela gaita de Rildo e a sanfona de Kiko. Em tom mais espiritual, Senhor, me Proteja, Por Favor - único samba assinado somente por Dudu - é súplica por dias prósperos e pacíficos feita em sintonia com a religiosidade do povo brasileiro. Já na seara das regravações o destaque é Pra que Vou Recordar o que Chorei? (1977), tema de Carlos Dafé que Dudu traz para o universo do pagode, sem o traço soul da gravação original do compositor projetado no movimento Black Rio. Em contrapartida, Cordas de Aço (1976) soa tão digna quanto trivial, uma vez que a obra-prima de Cartola (1908 - 1980) já mereceu registros de intérpretes mais expressivos. No todo, O Samba Aqui Já Esquentou se revela um ótimo e alegre CD que apaga a má impressão deixada pelos últimos trabalhos de Dudu Nobre.