sábado, 6 de agosto de 2011

De volta à origem, Teresa canta nobreza do samba em show bom e linear

Resenha de show
Título: Teresa Cristina
Artista: Teresa Cristina (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro Rival (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 5 de agosto de 2011
Cotação: * * * 1/2
Show em cartaz somente até este sábado - 6 de agosto de 2011 - no Teatro Rival (RJ)

Com roteiro calcado em sambas de compositores da escola de samba Portela, uma das mais tradicionais do Carnaval carioca, o show estreado esta semana por Teresa Cristina no Teatro Rival, no Rio de Janeiro (RJ), representa de certa forma uma volta da cantora às suas origens e às tradições do samba. Uma outra Teresa Cristina tinha emergido este ano, no mesmo palco do Rival, para cantar o repertório de Roberto Carlos com o grupo indie carioca Os Outros. A Teresa Cristina que ora volta ao samba é, em essência, a personificação daquela cantora mais comportada que fez seu nome cantando sambas em casas da Lapa, o bairro carioca, point principal da propagação desses sambas antigos para público jovem. Já sem a timidez paralisante de outrora, a cantora expõe em cena a elegância do samba mais nobre sob a direção musical do cavaquinista João Callado. E o fato é que seu atual show é tão bom quanto linear. Bom por ser show calcado em músicas de compositores da mais alta patente da Academia do Samba, bambas egressos da Portela como Candeia (1935 - 1978), Chico Santana (1911 - 1988), Manacéa (1921 - 1995) e Mijinha (1918 - 1976). Linear porque o show nega a evolução cênica da artista - evidenciada a partir do espetáculo de 2009 que originou o DVD e o CD ao vivo Melhor Assim (2010) - e transcorre sempre no mesmo tom. Contudo, o saldo é mais do que positivo. Até porque poucas cantoras conseguem realçar com naturalidade a melancolia embutida em sambas como Eu e as Flores, bissexta parceria de Jair do Cavaquinho (1922 - 2006) com Nelson Cavaquinho (1911 - 1986), rara presença mangueirense no roteiro povoado por portelenses. Teresa Cristina já carrega tal melancolia em seu canto e essa tristeza inata da intérprete faz com que o tom de sambas como Quantas Lágrimas (Manacéa) e Silêncio (Chico Santana) se ajuste naturalmente à sua voz. E, verdade seja dita, quando preciso, a artista consegue também esboçar o humor de sambas como Embrulho que Carrego (Alvaiade e Djalma Mafra). Com melancolia ou humor, o show celebra acima de tudo a Portela e, em especial, a obra de Candeia. De Antonio Candeia Filho, Teresa canta nada menos do que 13 sambas, se permitindo omitir alguns sucessos do compositor (Dia de Graça, Pintura sem Arte, Amor Não É Brinquedo) em favor de títulos pouco badalados do repertório do sambista - casos de Brinde ao Cansaço e O Último Bloco. Mas Teresa não esquece as célebres parcerias de Candeia com Paulinho da Viola (Coisas Banais e Minhas Madrugadas) e clássicos como Filosofia do Samba, O Mar Serenou (popularizado em escala nacional em 1975 na luminosa voz de Clara Nunes e inserido de improviso no roteiro por Teresa na estreia do show) e Preciso me Encontrar (propagado por Marisa Monte em primorosa gravação ao vivo de 1988). Dos sambas menos conhecidos pelas novas gerações, Sorriso Antigo (Candeia e Aldecy) é mais associado ao cantor paulista Noite Ilustrada (1928 - 2003) do que ao seu compositor - a ponto de a própria Teresa Cristina ter dito erroneamente em cena que o samba não era de autoria de Candeia. Enfim, detalhes. É tamanha a nobreza do repertório reunido pela cantora que, mesmo transcorrendo linear, o show vai cativando e envolvendo muito o espectador - inclusive pela atmosfera apropriada criada em cena por músicos como Mestre Trambique (surdo), Bruno Cunha (pandeiro e voz), Bernardo Dantas (violão), André Vercelino (percussão), Luiz Augusto (percussão) e o já citado João Callado (cavaquinho). Carioca da gema, a portelense Teresa Cristina está em casa e acerta as contas com seu passado de glória neste tributo a Candeia e à escola de samba de seu coração. Ode que começa com Cantar (tema de Teresa que cita a Portela) e culmina com Foi um Rio que Passou em Minha Vida, pérola de Paulinho da Viola, tão portelense e tão nobre quanto os compositores celebrados pela cantora em sua volta ao samba.

8 comentários:

  1. Com roteiro calcado em sambas de compositores da escola de samba Portela, uma das mais tradicionais do Carnaval carioca, o show estreado esta semana por Teresa Cristina no Teatro Rival, no Rio de Janeiro (RJ), representa de certa forma uma volta da cantora às suas origens e às tradições do samba. Uma outra Teresa Cristina tinha emergido este ano, no mesmo palco do Rival, para cantar o repertório de Roberto Carlos com o grupo indie carioca Os Outros. A Teresa Cristina que ora volta ao samba é, em essência, a personificação daquela cantora mais comportada que fez seu nome cantando sambas em casas da Lapa, o bairro carioca, point principal da propagação desses sambas antigos para público jovem. Já sem a timidez paralisante de outrora, a cantora expõe em cena a elegância do samba mais nobre sob a direção musical do cavaquinista João Callado. E o fato é que seu atual show é tão bom quanto linear. Bom por ser show calcado em músicas de compositores da mais alta patente da Academia do Samba, bambas egressos da Portela como Candeia (1935 - 1978), Chico Santana (1911 - 1988), Manacéa (1921 - 1995) e Mijinha (1918 - 1976). Linear porque o show nega a evolução cênica da artista - evidenciada a partir do espetáculo de 2009 que originou o DVD e o CD ao vivo Melhor Assim (2010) - e transcorre sempre no mesmo tom. Contudo, o saldo é mais do que positivo. Até porque poucas cantoras conseguem realçar com naturalidade a melancolia embutida em sambas como Eu e as Flores, bissexta parceria de Jair do Cavaquinho (1922 - 2006) com Nelson Cavaquinho (1911 - 2006), rara presença mangueirense no roteiro povoado por portelenses. Teresa Cristina já carrega tal melancolia em seu canto e essa tristeza inata da intérprete faz com que o tom de sambas como Quantas Lágrimas (Manacéa) e Silêncio (Chico Santana) se ajuste naturalmente à sua voz. E, verdade seja dita, quando preciso, a artista consegue também esboçar o humor de sambas como Embrulho que Carrego (Alvaiade e Djalma Mafra). Com melancolia ou humor, o show celebra acima de tudo a Portela e, em especial, a obra de Candeia. De Antonio Candeia Filho, Teresa canta nada menos do que 13 sambas, se permitindo omitir alguns sucessos do compositor (Dia de Graça, Pintura sem Arte, Amor Não É Brinquedo) em favor de títulos pouco badalados do repertório do sambista - casos de Brinde ao Cansaço e O Último Bloco. Mas Teresa não esquece as célebres parcerias de Candeia com Paulinho da Viola (Coisas Banais e Minhas Madrugadas) e clássicos como Filosofia do Samba, O Mar Serenou (popularizado em escala nacional em 1975 na luminosa voz de Clara Nunes e inserido de improviso no roteiro por Teresa na estreia do show) e Preciso me Encontrar (propagado por Marisa Monte em primorosa gravação ao vivo de 1988). Dos sambas menos conhecidos pelas novas gerações, Sorriso Antigo (Candeia e Aldecy) é mais associado ao cantor paulista Noite Ilustrada (1928 - 2003) do que ao seu compositor - a ponto de a própria Teresa Cristina ter dito erroneamente em cena que o samba não era de autoria de Candeia. Enfim, detalhes. É tamanha a nobreza do repertório reunido pela cantora que, mesmo transcorrendo linear, o show vai cativando e envolvendo muito o espectador - inclusive pela atmosfera apropriada criada em cena por músicos como Mestre Trambique (surdo), Bruno Cunha (pandeiro e voz), Bernardo Dantas (violão), André Vercelino (percussão), Luiz Augusto (percussão) e o já citado João Callado (cavaquinho). Carioca da gema, a portelense Teresa Cristina está em casa e acerta as contas com seu passado de glória neste tributo a Candeia e à escola de samba de seu coração. Ode que começa com Cantar (tema de Teresa que cita a Portela) e culmina com Foi um Rio que Passou em Minha Vida, pérola de Paulinho da Viola, tão portelense e tão nobre quanto os compositores celebrados pela cantora em sua volta ao samba.

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  2. Correção, Mauro! ;)

    O mestre Cavaquinho nos deixou em 1986, aos 74 anos.

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  3. Mauro, certamente já vão ter comentado isso aqui: Nelson Cavaquinho saiu de cena em 1986, não em 2006.

    Claro, o erro deve ter sido por você ter na cabeça a data do falecimento de Jair do Cavaquinho, que acabara de digitar.

    Felipe dos Santos Souza

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  4. Como sempre, valeu pela resenha Mauro!

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  5. Luis e Felipe, grato pela correção. É muita data e eu me confundo mesmo. Abs, MauroF

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  6. Boa tarde, Mauro,

    Apenas uma correçãozinha: no título da nota saiu "Teatro do Rival"...

    Como sempre, bela resenha! Teresa é uma grande artista! Gosto muito do seu trabalho!!!

    Abraços!

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  7. Oi, Alexandre, grato por mais essa correção.

    A cabeça está a mil com tanta estreia na mesma semana: Gulin, Teresa, Bibi (resenha acabou de entrar no ar), Marina (daqui a pouco um post sobre a estreia carioca de Climax), Emilinha & Marlene, Tim Maia... Ufa...

    valeu!
    abs, mauroF

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  8. Prezado Mauro,

    Só mais uma observação: apesar de não ter este contexto, mas evite usar o termo Academia do Samba, visto que o mesmo pertence ao GRES Acadêmicos do Salgueiro. Abs,

    Marcelo Barbosa - Brasília (DF)

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