Resenha de show
Título: Teresa Cristina
Artista: Teresa Cristina (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Teatro Rival (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 5 de agosto de 2011
Cotação: * * * 1/2
Show em cartaz somente até este sábado - 6 de agosto de 2011 - no Teatro Rival (RJ)
Com roteiro calcado em sambas de compositores da escola de samba Portela, uma das mais tradicionais do Carnaval carioca, o show estreado esta semana por Teresa Cristina no Teatro Rival, no Rio de Janeiro (RJ), representa de certa forma uma volta da cantora às suas origens e às tradições do samba. Uma outra Teresa Cristina tinha emergido este ano, no mesmo palco do Rival, para cantar o repertório de Roberto Carlos com o grupo indie carioca Os Outros. A Teresa Cristina que ora volta ao samba é, em essência, a personificação daquela cantora mais comportada que fez seu nome cantando sambas em casas da Lapa, o bairro carioca, point principal da propagação desses sambas antigos para público jovem. Já sem a timidez paralisante de outrora, a cantora expõe em cena a elegância do samba mais nobre sob a direção musical do cavaquinista João Callado. E o fato é que seu atual show é tão bom quanto linear. Bom por ser show calcado em músicas de compositores da mais alta patente da Academia do Samba, bambas egressos da Portela como Candeia (1935 - 1978), Chico Santana (1911 - 1988), Manacéa (1921 - 1995) e Mijinha (1918 - 1976). Linear porque o show nega a evolução cênica da artista - evidenciada a partir do espetáculo de 2009 que originou o DVD e o CD ao vivo Melhor Assim (2010) - e transcorre sempre no mesmo tom. Contudo, o saldo é mais do que positivo. Até porque poucas cantoras conseguem realçar com naturalidade a melancolia embutida em sambas como Eu e as Flores, bissexta parceria de Jair do Cavaquinho (1922 - 2006) com Nelson Cavaquinho (1911 - 1986), rara presença mangueirense no roteiro povoado por portelenses. Teresa Cristina já carrega tal melancolia em seu canto e essa tristeza inata da intérprete faz com que o tom de sambas como Quantas Lágrimas (Manacéa) e Silêncio (Chico Santana) se ajuste naturalmente à sua voz. E, verdade seja dita, quando preciso, a artista consegue também esboçar o humor de sambas como Embrulho que Carrego (Alvaiade e Djalma Mafra). Com melancolia ou humor, o show celebra acima de tudo a Portela e, em especial, a obra de Candeia. De Antonio Candeia Filho, Teresa canta nada menos do que 13 sambas, se permitindo omitir alguns sucessos do compositor (Dia de Graça, Pintura sem Arte, Amor Não É Brinquedo) em favor de títulos pouco badalados do repertório do sambista - casos de Brinde ao Cansaço e O Último Bloco. Mas Teresa não esquece as célebres parcerias de Candeia com Paulinho da Viola (Coisas Banais e Minhas Madrugadas) e clássicos como Filosofia do Samba, O Mar Serenou (popularizado em escala nacional em 1975 na luminosa voz de Clara Nunes e inserido de improviso no roteiro por Teresa na estreia do show) e Preciso me Encontrar (propagado por Marisa Monte em primorosa gravação ao vivo de 1988). Dos sambas menos conhecidos pelas novas gerações, Sorriso Antigo (Candeia e Aldecy) é mais associado ao cantor paulista Noite Ilustrada (1928 - 2003) do que ao seu compositor - a ponto de a própria Teresa Cristina ter dito erroneamente em cena que o samba não era de autoria de Candeia. Enfim, detalhes. É tamanha a nobreza do repertório reunido pela cantora que, mesmo transcorrendo linear, o show vai cativando e envolvendo muito o espectador - inclusive pela atmosfera apropriada criada em cena por músicos como Mestre Trambique (surdo), Bruno Cunha (pandeiro e voz), Bernardo Dantas (violão), André Vercelino (percussão), Luiz Augusto (percussão) e o já citado João Callado (cavaquinho). Carioca da gema, a portelense Teresa Cristina está em casa e acerta as contas com seu passado de glória neste tributo a Candeia e à escola de samba de seu coração. Ode que começa com Cantar (tema de Teresa que cita a Portela) e culmina com Foi um Rio que Passou em Minha Vida, pérola de Paulinho da Viola, tão portelense e tão nobre quanto os compositores celebrados pela cantora em sua volta ao samba.
Com roteiro calcado em sambas de compositores da escola de samba Portela, uma das mais tradicionais do Carnaval carioca, o show estreado esta semana por Teresa Cristina no Teatro Rival, no Rio de Janeiro (RJ), representa de certa forma uma volta da cantora às suas origens e às tradições do samba. Uma outra Teresa Cristina tinha emergido este ano, no mesmo palco do Rival, para cantar o repertório de Roberto Carlos com o grupo indie carioca Os Outros. A Teresa Cristina que ora volta ao samba é, em essência, a personificação daquela cantora mais comportada que fez seu nome cantando sambas em casas da Lapa, o bairro carioca, point principal da propagação desses sambas antigos para público jovem. Já sem a timidez paralisante de outrora, a cantora expõe em cena a elegância do samba mais nobre sob a direção musical do cavaquinista João Callado. E o fato é que seu atual show é tão bom quanto linear. Bom por ser show calcado em músicas de compositores da mais alta patente da Academia do Samba, bambas egressos da Portela como Candeia (1935 - 1978), Chico Santana (1911 - 1988), Manacéa (1921 - 1995) e Mijinha (1918 - 1976). Linear porque o show nega a evolução cênica da artista - evidenciada a partir do espetáculo de 2009 que originou o DVD e o CD ao vivo Melhor Assim (2010) - e transcorre sempre no mesmo tom. Contudo, o saldo é mais do que positivo. Até porque poucas cantoras conseguem realçar com naturalidade a melancolia embutida em sambas como Eu e as Flores, bissexta parceria de Jair do Cavaquinho (1922 - 2006) com Nelson Cavaquinho (1911 - 2006), rara presença mangueirense no roteiro povoado por portelenses. Teresa Cristina já carrega tal melancolia em seu canto e essa tristeza inata da intérprete faz com que o tom de sambas como Quantas Lágrimas (Manacéa) e Silêncio (Chico Santana) se ajuste naturalmente à sua voz. E, verdade seja dita, quando preciso, a artista consegue também esboçar o humor de sambas como Embrulho que Carrego (Alvaiade e Djalma Mafra). Com melancolia ou humor, o show celebra acima de tudo a Portela e, em especial, a obra de Candeia. De Antonio Candeia Filho, Teresa canta nada menos do que 13 sambas, se permitindo omitir alguns sucessos do compositor (Dia de Graça, Pintura sem Arte, Amor Não É Brinquedo) em favor de títulos pouco badalados do repertório do sambista - casos de Brinde ao Cansaço e O Último Bloco. Mas Teresa não esquece as célebres parcerias de Candeia com Paulinho da Viola (Coisas Banais e Minhas Madrugadas) e clássicos como Filosofia do Samba, O Mar Serenou (popularizado em escala nacional em 1975 na luminosa voz de Clara Nunes e inserido de improviso no roteiro por Teresa na estreia do show) e Preciso me Encontrar (propagado por Marisa Monte em primorosa gravação ao vivo de 1988). Dos sambas menos conhecidos pelas novas gerações, Sorriso Antigo (Candeia e Aldecy) é mais associado ao cantor paulista Noite Ilustrada (1928 - 2003) do que ao seu compositor - a ponto de a própria Teresa Cristina ter dito erroneamente em cena que o samba não era de autoria de Candeia. Enfim, detalhes. É tamanha a nobreza do repertório reunido pela cantora que, mesmo transcorrendo linear, o show vai cativando e envolvendo muito o espectador - inclusive pela atmosfera apropriada criada em cena por músicos como Mestre Trambique (surdo), Bruno Cunha (pandeiro e voz), Bernardo Dantas (violão), André Vercelino (percussão), Luiz Augusto (percussão) e o já citado João Callado (cavaquinho). Carioca da gema, a portelense Teresa Cristina está em casa e acerta as contas com seu passado de glória neste tributo a Candeia e à escola de samba de seu coração. Ode que começa com Cantar (tema de Teresa que cita a Portela) e culmina com Foi um Rio que Passou em Minha Vida, pérola de Paulinho da Viola, tão portelense e tão nobre quanto os compositores celebrados pela cantora em sua volta ao samba.
ResponderExcluirCorreção, Mauro! ;)
ResponderExcluirO mestre Cavaquinho nos deixou em 1986, aos 74 anos.
Mauro, certamente já vão ter comentado isso aqui: Nelson Cavaquinho saiu de cena em 1986, não em 2006.
ResponderExcluirClaro, o erro deve ter sido por você ter na cabeça a data do falecimento de Jair do Cavaquinho, que acabara de digitar.
Felipe dos Santos Souza
Como sempre, valeu pela resenha Mauro!
ResponderExcluirLuis e Felipe, grato pela correção. É muita data e eu me confundo mesmo. Abs, MauroF
ResponderExcluirBoa tarde, Mauro,
ResponderExcluirApenas uma correçãozinha: no título da nota saiu "Teatro do Rival"...
Como sempre, bela resenha! Teresa é uma grande artista! Gosto muito do seu trabalho!!!
Abraços!
Oi, Alexandre, grato por mais essa correção.
ResponderExcluirA cabeça está a mil com tanta estreia na mesma semana: Gulin, Teresa, Bibi (resenha acabou de entrar no ar), Marina (daqui a pouco um post sobre a estreia carioca de Climax), Emilinha & Marlene, Tim Maia... Ufa...
valeu!
abs, mauroF
Prezado Mauro,
ResponderExcluirSó mais uma observação: apesar de não ter este contexto, mas evite usar o termo Academia do Samba, visto que o mesmo pertence ao GRES Acadêmicos do Salgueiro. Abs,
Marcelo Barbosa - Brasília (DF)